Terra, Água e Ar (Víctor Lemes) Tenho olhado muito para o céu. Como se quisesse me encontrar Por entre aquelas nuvens diversas, Ou só ficar observando a luz da Lua. Velejando pelos sete mares Sem sair da cadeira do computador. Procurando um tesouro escondido, No mais profundo dos corações mais tristes. Voando pelos quatro ventos, Planando sob os mais altos penhascos, Sentindo o Vento sempre em meu rosto, E levando-o sempre comigo, dentro do peito. Vagando por infinitas ruas e avenidas, Sem saber por onde começar a te procurar. Só pensando se vou conseguir cumprir meu papel, E conseguir inventar deste inferno um novo céu.
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Engano (Víctor Lemes) Meu amor, eu confesso Que não tendo Você ao meu lado, Me encontro indefeso. Confesso, confesso, E confesso que me apaixono Fácil, fácil é o engano, Por aquela que mau conheço. E que posso não lembrar De ti, ou de teu outro nome, Isso é bem verdade, Já que sou livre pra te amar. E você, a quem eu ignoro pensar Ou lembrar, ou tentar imaginar, Por favor, não me julgues. Aceito-te, e sei que não me queres.
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Encontrei esse papelzinho amassado na lata onde guardo as canetas. Lembro-me de tê-lo escrito no Simpósio de Letras, do ano passado. Mas não me recordo de tê-la esquecido... Meias grossas (Víctor Lemes) A rasteirinha treme no pé que sua, Perdendo a lógica de todo processo. Meus pés cobertos de meias grossas, Metidos nestes tênis pretos e apertados. Mal mexo os dedos, dói os calos.
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Sabe (Víctor Lemes) Sabe que hoje acordei com esse sentimento de carinho nos olhos, de poder sentir a saudade de um mundo colorido e simples, com milhares de carrinhos em uma única largada, outros milhares de amigos imaginários tão reais quanto o algodão de que eram feitos. De saber que posso dormir tranquilo, que tudo está bem em casa, que minha mãe sorri na sala, enquanto vê, na sacada, as três esferas reluzentes que dançavam para nós. A saudade de uma xícara com olhos e pés, que substituíra a mamadeira tão querida, naquele dia. Os bonecos, os Legos, os Cavaleiros do Zodíaco e os CyberCops. Tinha dias que me fazia cozinheiro, em mundo americano, onde tudo era feito de lata e meu fogão não tinha forno. Ou então, quando tirava tudo do lugar e colocava em cima do criado-mudo, da cama, e da cadeira da escrivaninha, inventava preços e fazia do meu quarto um verdadeiro mercado. Ou ainda, quando juntávamos duas cadeiras da mesa de jantar, púnhamos um coberto em cima, pegávamos o gravado...
Abril aberto
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(Víctor Lemes) Sabe quando cê sabe? Pois é, eu sabia. Mas se eu soubesse Que se o saber assim machucasse, Eu deixava de saber, e desaparecia. E abril mal abriu e eu aqui, Abrindo as janelas já abertas Pr'as mais abertas ruas que há de ter por ali. Ah, como abril já abrira minha caixa mal aberta por tantas outras tentativas, Que deixei-te na mente, Como ferida aberta, que a gente cutuca, Sangra pouco e a gente se lembra, De como machucamos o couro e a carne... Deixei abril assim, aberto, Pra quem sabe, enfim, ser descoberto. Saber das coisas de um coração confuso, Confundir-lhe e a mim também, por saber de tudo um pouco.
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"Toda vez que te olho crio um romance..." (Trecho da música "Timidez", Biquini Cavadão) Horóscopo (Víctor Lemes) E toda que vez leio o horóscopo Me dá um medo de já tê-la no peito. E o amor que sonhara tanto, Num instante, se torna preto e branco. Conceder e lhe entregar o que carrego, Sentimento ilhado, sem sentido e aleijado. Mas tão leve como a folha que cai no outono. Tão doce e branco, como flocos cadentes do inverno.
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Pensar em você (Víctor Lemes) Pensar em você é como embarcar Num ônibus, e ler um livro. A gente só se concentra nele, E esquece do caminho. Pensar em você é como ser Um cãozinho com três patas, Que mesmo faltando uma, Se entrega ao simples prazer de viver. Pensar em você é como ser Um daqueles negros pássaros, Que flutuam nos mares de cima, Fazendo seus círculos, e seus apitos. Pensar em você é o não ter Medo de escrever, de tentar, Mesmo que nunca aconteça, Ou que, como flor, floresça.