Louveira, 12 de Setembro de 2009, 20:19 h.



Enquanto caminhava, percebia os movimentos apressados dos adultos, iam e vinham com sacolas enormes, falando alto umas com as outras. Pareciam não saber que caminho deviam seguir, que curva virar...

Eu tinha brinquedos no meu quarto: muitas pelúcias, uma cozinha completa, o mercado sem balcões, o Pateta e o Pluto, o Júpiter e o Saturno, o Dragão e o Fênix, os prédios em constante construção-desconstrução... e, finalmente, o grid de largada mais sortido que pacotes de bolacha salgada da Panco.

Quantas foram as vezes que levantei cedo demais ao sábados, só pra assistir aquelas fitas antigas. Eu só reconhecia um décimo da festa, não lembrava o gosto do bolo, nem a dor da queda naqueles ladrilhos laranjas.

Ligava o rádio, punha o CD, e segundos estava lá: descalço no carpete, dançando, em frente à parede brilhante, alheio a qualquer coisa ou pessoa que estivesse me olhando da sala... Não só dançava como também tentava imitar aquela cantora, só que não entendia seu idioma, nem um pouquinho assim...

Quando descobri, ou melhor, quando parei de esquecer seu nome, o vento me disse que ela tinha feito uma música em homenagem a um dos meus ídolos: Ayrton Senna. Coincidentalmente, ele era o piloto que mais ganhava lá em casa. Talvez tenha sido por esse motivo que nunca mais esqueci seu nome: Tina Turner.

Naquele mesmo rádio, não ouvi só Tina, mas também ouvi muito uma música que não sentia vontade de dançar. Comecei a ouvir, ouvir, e ouvir muito, até que um dia pude cantá-la de cor. Minha voz fina não devia ser muito boa para cantar, contudo, continuei a cantar...

Na catequese, nós também aprendíamos a cantar. Só que eram músicas que não entendia direito, e também não tinham muita graça, eram fáceis demais pra decorar. Lá, também aprendi outras coisas: o terço não era só pra ser usado como enfeite de retrovisor de táxi; como orar o Pai Nosso e Ave-Maria, o Credo e... o que mais me intrigou: o nome dos Santos.

Quando descobri então que morávamos 'num' Santo, fiquei surpreso. O que, porém, havia me deixado mais perplexo foi o quando lembre-me daquela música, que sabia de cor, que dizia mais ou menos assim: "meu filho terá nome de santo". O vento me contou que no mundo havia vários santos, e que Victor era o nome de um deles. Mais tarde, haveria de saber também que 15 de junho era justamente o dia dele...

Acho que foi por ali, naqueles tempos de descobertas fantásticas, que comecei a ser trilhado por alguém que eu não duvidava nem confiava. O caminho que me deixei levar tinha uma vegetação densa, mata fechada, onde as árvores eram gigantescas e envergadas uma as outras, entrelaçando suas copas de modo que, se se olhasse para cima, o céu não veria. Do jeito que aquele caminho era, o vento passava fraco por entre as folhas e os troncos largos, e raramente alcançava meus olhos...

Havia me passado que tudo que nos rodeia é, e não "está". Se eu nascesse bobo, bobo seria o resto da vida. A vida não era pra se pensar. Esqueça as pessoas chatas. Os problemas deixe pra lá. Acredite no que lhe digo. Acredite sem pensar. Afinal, sou seu pai. Hoje, entendo o porquê que não consigo chamar Deus de pai...

Tenho muito a escrever ainda; Mais ainda tenho de colher...



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SOBRE O AUTOR

Víctor Lemes, idealizador e administrador do blog, geminiano nascido em 1989, em São Bernardo do Campo. Formado em Letras (UniAnchieta/Jundiaí - 2009), e pós-graduado em Especialização em Língua Inglesa (UniAnchieta/Jundiaí - 2011), trabalha como coordenador pedagógico e professor de inglês na escola de idiomas CNA, localizado em Louveira, cidade em que mora desde 2002.

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