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Higa

(Víctor Lemes) Olhos cheios de alegria, Um sorriso contagiante Com dentes alinhados E limpinhos. Abraça forte, Apesar da baixa estatura. Um tanto quieta, Um tanto falante. Se perdeu num parque De diversão, Num daqueles labirintos De espelhos, longe do coração. Hoje, vive de memórias De outros e outras, Algumas sem valor algum, Outras tão simples porém mágicas. Eu aparentava vinte e três, Mas tinha apenas dezessete... Foi naquele dia que reconheci Uma amiga de verdade. (...e que, de saudade, me fez rir, outra noite.)

Sem título 12

(Víctor Lemes) Tenho andado com a cabeça baixa A olhar os fios de água da chuva Que correm por entre as rachaduras De uma terra supostamente firme. Minha cabeça gira, feito pião, Dá pra ouvi-la bem alto. Minha cabeça grita, Diante tanta hipocrisia Daqueles que estão perto. Minha garganta é capaz de deixar passar O riso tolo sobre coisas tolas, Mas nunca deixa o grito de agonia passar, Seja estridente, seja silencioso. Começo a entender agora o que outros Tem nos deixado aqui pra entender, Se eu fosse contar nos dedos Quantos são os verdadeiros, Ergueria os olhos pro infinito E lhe perguntaria: Pra quê tantos dedos?
Cinza (Víctor Lemes) Sabe o que eu queria fazer hoje? Te conhecer. E que eu pudesse fazê-la rir Enquanto eu rio dos pedaços de mim. E outra coisa que faria hoje? Me conhecer. E que você pudesse fazer-me rir Enquanto você ri do meu vazio. Uma coisa que não fiz hoje? Me abraçar. E dizer-me bem no fundo Quão tolo ainda sou. Uma coisa que não faria hoje? Perder-te. E me lembraria de querer desaparecer, Quem sabe assim, sentiste falta de mim.
Sem título 11 (Víctor Lemes) O que significa emocionar-se Senão o encher-se de emoção, Daquela que por inteiro o consome Ou daquela que traz lágrimas ao coração.
Sem exceções (Víctor Lemes) É difícil para as pessoas entenderem A razão nossa de nunca desistirmos. Lutamos tanto contra o preconceito para com o negro, Abolimos (mesmo que apenas em parcela) a escravidão. Tiveram que morrer queimadas em fábricas, fogueiras Feito bruxas, feito loucas, feito rebeldes criaturas Que se rebelaram contra o machismo autoritário De tantos homens, de tantas bestas, de tanto vazio. Quantos não foram vítimas de crentes enganados, Céticos cientistas, psicólogos e malucos. Apanharam, sofreram e muitos até morreram Por só preferirem os iguais a si mesmos. Temos batalhado contra tudo e contra todos, Aqueles que se diziam perfeitos, e belos. Temos vencido preconceitos, quebrando paradigmas: Bifobia, etaísmo, homofobia, racismo e sexismo. A verdade é que nós, tal qual vocês, somos todos iguais. Todos queremos um lugar de igualdade, fraternidade e liberdade. A cada geração, temos atualizado esses três termos, É chegada a hora de ver mais alé...
Ao ponto (Víctor Lemes) Querem nos derrubar, e nos controlar, Podem até conseguir nos conquistar, Mas minh' alma é tão minha Quanto o Sol é pra Lua, Ou o asfalto é pra rua. Nada há de me cruzar, Nem me atravessar por inteiro. Apenas a carne há de se arrebentar, Quando as lâminas de um deus Com minúsculas chegar. E dali em diante hei de crescer, Meu poder é muito mais eterno Do que os dos homens que nada valem. Pois meu pai é o Pai das Luzes, E hei de iluminar todas as frestas.
Conforto (Víctor Lemes)  No tempo em que as folhas caíam no outono, Em que a chuva se derramava em todo lugar, Quando os índios não eram animais, E os negros eram tão brancos como os pardos. Quando os sonhos se realizavam a cada segundo, E a cada esquina não se via uma sequer criança, Onde as sombras só apareciam à noite, E a luz irradiava e vinha até da Lua. Em tardes que começavam cedo, Você via saúvas trabalharem nas calçadas, Levando em suas cabeças imensas folhas secas. Invertia os passos procurando evitá-las, Pois mantinham o equilíbrio de um mundo fictício. E desde então tem nos permitido Viver e vivenciar tudo e todos, Sabendo disso, com cacos de espelhos, Bem afiados, fomos furando as veias dos outros, Nos manchamos de sangue, de dor, de covardia, Num mundo repleto de vida nos matamos. Como eu sinto falta daqueles dias, Ah! Que nostalgia de uma vida que nunca vivi.
Borboleta (Víctor Lemes) Sonhei que ia me casar, Mas estava infeliz. Abria a boca para bocejar Não para sorrir. Foi dada uma festa em casa, Uma casa feia, abandonada. Vi uma linda moça na varanda Abraçando o próprio corpo, Se protegendo do frio. Me senti realizado Só de estar ao seu lado, Passei a festa toda A acompanhá-la. Sem mais, acordei atrasado. Meu estado de espírito frustrado. E meu eu cansado Por cansar-se de só sonhar E nada realizar.
7  (Víctor Lemes) Num mundo manchado de sangue, Me vi cheio de um sonho gigante. Diante um espelho me vi os lados, E a sorrir me abri os braços. Se escondendo de quem tudo vê, De que vale o pódio Quando se corre sozinho... Em um destes quadros abstratos Quis me perder por entre os traços. E pude rever-te os olhos, E pude ter-lhe nos braços. Talvez saiba, talvez não, Que já me tens cativado E hoje carrega-me em tua mão.
Animais são inferiores (Víctor Lemes) Essa vaca está a me olhar, seu moço. Pois enfia-lhe uma marretada na cabeça, Afinal, Animais são inferiores. Esta galinha deu tantos pintos machos, seu moço. Pois leve-os para o rolo compressor, nenhum há de botar ovo. Afinal, Animais são inferiores. Essa leitoa já deu de mamar pr'os seus filhotes. Enfia-lhe a faca, despeje seu sangue neste balde. Afinal, Animais são inferiores. É tanto saco de areia pra levar, vai demorar, Seu moço. Pois empilhe tudo neste potro, Afinal, Animais são inferiores. Este cachorro, encontrei por ali, é magro. Pois arraste-o até a mesa, há de dar algum lucro. Afinal, Animais são inferiores. Senhor, estávamos trabalhando por noites nesta vacina, Pois teste-a nestes chimpanzés, e vê no que dá. Afinal, Animais são inferiores. Esta foca estava a dormir agorinha a pouco, Pois dê-lhe uma paulada na cabeça, e pinte a neve. Afinal, Animais são inferiores. Trouxemos uns pretos da África, m...
O cúmulo dos cúmulos (Víctor Lemes) Não é minha culpa. Animais são inferiores. Noticiários noticiam só o que é importante. A maldade é motivo de ibope. As novelas dominam a realidade. O homem sempre comeu carne, então não há mal nisso. O homem sempre escravizou o inferior, então não há nada de errado nisso. Sou contra a violência em animais, fui num churrasco domingo passado. Eu não teria coragem de matar um animal, por isso pago pra matarem. Que horror o que fizeram com aquela garota, quanta maldade. Que assassino. Não quero ouvir você falar bobagem. Quanta besteira isso, daqui a pouco não vai nem comer tomate. Aquela coisa branca que flutua no céu é nuvem, pouco me importa. Você viu os chineses? Comem cães, que dó! Eu não comeria meu gatinho, ah... Me vê quinhentos gramas de linguiça calabresa, faz favor. Que eu tenho a ver com isso? Se só eu fizer isso aí, não vai adiantar nada. Vou todo domingo na missa. Fiz promessa. Cuidado, menino! Papai do céu tá de olho em você! Tenha medo D...
Movimento (Víctor Lemes) O vento movia as folhas Que flutuavam no ar. Num mesmo lugar Onde nuvens dançavam, Onde das sirenes Os sons se propagavam. Nuvens feito homens de hoje, Correndo apressadas Contra o relógio do céu. Porções de algodão, Cor de chumbo, Ameaçavam sujar o chão. E a mochila pesada, Cor cinza e azul, Levava nas costas. Rosto indignado, Olhos manchados E passos largos. Caminhava feito nuvem, Meio homem, meio bala, Sem ter muita direção. Era no centro da praça. Parou de frente ao rio, E descobriu que havia coração.
Perfil (Víctor Lemes) Um ser incompreendido, por não saber quem sou por dentro. Um Geminiano volúvel, como o ar que muda de direção tal qual o vento. Não, o vento não é a mesma coisa que o ar. O ar sou eu, o vento é de onde eu venho. Um tanto confuso com um mundo sem fim, Um tanto alheio ao mesmo mundo que habito. Um pouco vazio e cheio por dentro, Um pouco poeta, me perdendo em mim. Um vegetariano humano e animal. Sem preconceitos, e sem medos, Sem vergonha de rir da e na cara mesmo, Sem vergonha de chorar sozinho no umbral. Andei ausente, andei sem rumo, Por tanto tempo, tanto vazio. Caí de para-quedas num mundo meu, E minha bússola teima em apontar pro céu....
Abraço (Víctor Lemes) Um abraço que seja, Que sejam dois ou seis, Apenas me dê um sequer, E me sinta, seu corpo junto ao meu. Deixa-me perder-te em meus braços, Deixa o prazer dos hormônios soltos. Em braços, que juntos fiquemos Como se fôssemos perfeitos. Abra esses braços, De peito aberto me receba E aceite-me, como aceita o vento. De braços soltos, me aguarde, Me embrulhe feito presente e Me deixe abraçado nesse embaraço.
O passarinho e a lua (Víctor Lemes) E numa noite dessas de silêncio Estava eu debruçado à varanda, A admirar a aura da lua E o brilho dos anjos. De repente meu olhos captam algo, Um ser pequenino, que voava em circulos, Bem perto do meu rosto. Tinha bico E belas roxas penas, um esperto passarinho. Trazia consigo debaixo de sua roupa O prazer que só o amor é capaz De nos trazer. Pousara em meus dedos sem medo Me olhava curioso, tombando sua cabecinha Para os lados. *** Aquela lua linda estampada num céu azul-marinho, Fazia daquele momento melhor que os dias de sol. Com dois olhos redondos, feitos por meteoros, Me olhava com seu rosto levemente inclinado. Estava curiosa ao ver um humano fitando-a, Um humano que resolvera perder seu tempo Enfiado em cubículos decodificando dados, Ou metido num quarto se contentando com o passado. E assim, como se eu pudesse ter visto, Por quase um segundo, Ela sorriu pra mim. Enfim, senti o brilho simples de sua aur...
O mesmo olhar (Víctor Lemes) Que saudade daquelas manhãs de domingo, Naquele tempo em que o brasileiro Tinha orgulho de sê-lo todos os dias E não só de quatro em quatro anos... Ah, que gosto bom dessa parte da vida, Que hoje me traz lágrimas de alegria Misturada com frustração, pois sei que Dias iguais não há de ter mais por aqui... Bê, se pudesse reviver aquelas manhãs Daria tudo que tenho hoje pra estar lá, Torcendo a cada volta, berrando seu nome A cada reta, erguer bem no alto nossa bandeira... E poder sair de casa feliz, na segunda-feira, Sabendo que dali duas semanas Nosso meio-irmão, meio-parente, nosso amigo Estaria lá pra nos receber e nos reconhecer... Eternamente, que seja eterna sua presença Em nossa mente... e coração... Pois, almas assim não existirão... Daqui de baixo, do meu Brasil: viva, Senna!
Gente: falsa (Víctor Lemes) Vocês que alimentam a falsidade, Dando trocados a cada esquina, Vão fingindo que a meus olhos enganam E se enganam fazendo de si mesmos Grandes erros, tremenda mentira. De risadinhas tolas sem afeto algum, Vão distribuindo nas calçadas Panfletos cheios de propaganda enganosa. Vão subindo assim as escadas da vida, Se apoiando em suas ilusões Acreditando que fossem fortes corrimões, E de repente, sem ruído algum, Tropeçam e escada abaixo rolam... Dó de vocês? Piedade quando acordarem? Imaginem, sonhem alto assim, Não esperem nunca de mim palavras de afeto Para com pessoas como vocês, que maltratam Tanto o outro, mas quando A tristeza da solidão os invade, Voam feitos mosca em carne crua e sangrenta. Nojentos, estúpidos, hipócritas. Deste que aqui escreve nada mais há de lhes dizer, Já que o tempo trará a Verdade tão logo teus olhos chorem, E quem sabe então, Verão as cores fétidas de suas máscaras.
Ah, tempo! (Víctor Lemes) Personifiquei meu objeto de amor, E, naquela noite, deu seu primeiro passo. Pena que comecei pelo jeito fácil, Pois, mais fácil ainda há de acabar. Tudo que esperei nessa corrida adolescência, Hoje percebo, fiz errado; Perdi a mim mesmo no processo. Ah, Tempo! Tem dó de mim, E olha-me com esperança E me diz que ainda há chances, Que, num pulo, eu volto aqui pra dentro E me reencontro com aquele Víctor de três anos.
Espere (Víctor Lemes) Eu sei que não mentiu, meu amor. Sou o mentiroso de mim mesmo, Esperei ver em você o que ainda nem sou, E menti assim, sem porquê, Pra me ver metade feliz... Feliz em só falar com você.
Ah, coração! (Víctor Lemes) Ah, coração! Se eu não o conhecesse assim, Que seria de mim, pobre Solidão! E daí em diante, tudo é sorrisos, Sejam meus, sejam do Vento! Eu sei, eu sei que você já se cansou De tamanho passatempo, Mas entenda, coração, e me acredite, Nada melhor do que saber que eu, agora, Não estou a boiar num imenso lago De falsos amores... Estou a descer o rio do Tempo, A navegar em minhas próprias embarcações! Ah, coração! Como eu sou assim? Um tanto ingênuo, mas tão feliz...