Uma alusão boba sobre Portinari (Víctor Lemes) Uma pequena garota parada no meio do nada, frustrada talvez, triste talvez, feliz quem sabe; a observar um pequeno balão vermelho que, aos olhos de quem realmente sabe ver, parece ser um coração querido. Enquanto este é levado pelo vento, ela se recorda daquela canção, uma vez ouvida no rádio de sua humilde biblioteca particular, também chamado quarto, a qual dizia algo assim: "Que vento idiota, soprando toda vez que move sua boca, soprando, e descendo as ruas em direção sul." Nesse momento, eu, aquele somente observa, me lembro de uma cena semelhante. Há um bando de negras aves, ciscando entre as areais da praia, enquanto um navio rumo ao horizonte vai navegando. Um menino, de botas marrom, e roupa toda azul, está a empinar sua pipa vermelha, nos céus nublados, e acompanhados por três, talvez uma, talvez seis aves negras. Para meus olhos, o carretel de linh...
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RE: Compram-se asas (Víctor Lemes) Sentara no banco de trás do carro que, em alta velocidade, cruzava a avenida central. Pegou sua blusa, "dobrou-a" daquele jeito de menino-relaxado, e deitou-se, se esticando por todo o banco. Sua cabeça a olhar o céu através do vidro. Via nuvens, via aviões, via helicópteros, via outros carros, via árvores poucas, via quase tudo, em manchas. Até que o carro em que estava ficou paralelo a um ônibus. E pôde ver uma menina em uma das janelas. Com as mãos segurando a cabeça e os cabelos, encostado o olhar no vidro. Talvez tivesse podido ver o mesmo que ele tinha visto. Não entendia o cansaço naqueles olhos da menina, e teve a simples e fugaz idéia: com o dedo indicador, cutucava o vidro do banco de trás. Enquanto fazia marcas de suas digitais, mexia a boca como quando quem fala sem falar; e pronunciava um "Ei!", ou "Olha aqui!". ...
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Paineiras (Víctor Lemes) Voltando do trabalho embarquei em um ônibus, o de sempre. Cumprimentei o motorista, já velho conhecido meu, paguei minha passagem, e fui me sentar em uma das poltronas da janela. Prefiro as das janelas, pois as dos corredor são barulhentas demais. Você fica exposto a qualquer fofoca e conversa do ônibus. Você ouve tudo e a todos. Porém, se sentar nas da janela, seu olhar fixa-se apenas no caminho, e seus sonhos viajam no imenso céu azul. Num piscar de olhos, chega em teu ponto final. Liguei meu som, encostei a cabeça na poltrona, e tentei relaxar. O motorista já havia dado a partida, e acelerado um pouco, quando de repente o freio foi puxado, e levei um tranco que despertei. Uma mãe e seus três filhos gostariam de embarcar, haviam corrido contra o tempo só para tentarem pegá-lo. Enquanto a mãe pagava as três passagens, porque um dos filhos ainda era bebê, os outros dois correram procurando as melhores poltronas. Sua mãe sentou-se no par de poltronas ao meu l...
Conto Inacabado
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(Víctor Lemes) - Me conta. - O que você quer saber? - Vaaaai! - Pois então: "Quando atendi a porta, a minha surpresa foi por não só vê-la mas também aquele que arrancava a florzinha amarela de lá da frente. Fora o tempo que me pregara a peça ou eu, de fato, não o conhecia. Não me assustei ao vê-la a dois, convidei-os a entrar. Na época da sua avó, as pessoas sempre se abraçavam ao se cumprimentarem. Nossa geração nunca o fez, apenas em festas e olhe lá! Lembre-se disso. Cumprimentei o rapaz com um abraço mais frouxo, em relação àquele que nela dei. Não me recordo o que fazia da vida, nem eu, nem ele. Ela seguira o caminho imaginário que havia planejado naqueles dias. Fiquei feliz: alcançara o que tanto, ou quase nada, almejara há anos. Era de alguma forma como eu, todavia, ela teve uma vantagem: escolheu a vida como ela é à poesia. Nessa casa onde agora você se conforta... (Não devo fechar as aspas. Ainda.)
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A Árvore (Víctor Lemes) Senti cócegas nos pés, quando pequenos dedos passavam por entre eles. O vi ali, próximo a mim, sentado a chorar... Não entendi o porquê: enquanto eu acabava de rir, o menino chorava. Fiquei com pena, e ao contrário de meus irmãos, quis abraçá-lo. Mas não podia, ele tinha algo em mãos, algo que parecia não querer largar... E quando me dei conta disso, lembrei-me que o conhecia. Era ele quem vagava, por todos os lados com sua irmã. Era ele o que era livre. E nem sei quantos foram os dias que me debruçava nesses limpos e lindos campos, a olhar os meus amigos pássaros, e a ouvir seus passos. Quanta alegria estampada em seu rosto, a arrastar-se tão rapidamente quanto o vôo dos meus pássaros. E eu aqui, sempre sentada pra vida, a só observar toda a alegria. E ele sentado a minha frente, com lágrimas no rosto, a se queixar da vida. Talvez, meu mundo e o seu sejam diferentes. E talvez, eu veja mais, sem os olhos que tem. Mas eu ainda só vejo um lado d...
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O Campo (Víctor Lemes) Enquanto éramos jovens, costumávamos correr muito ao invés de caminharmos. Era como se a alegria de viver fosse transferida toda para nossas pernas, e como se não houvesse limite nosso cansaço. Por mais que eu tente lembrar o porquê de tanta correria, não consigo encontrar uma resposta. E como nesses dias onde havia correria de viver, havia desenterrado minha vontade de viver. Todos eram os dias que a trazia comigo. Senti a vontade, mais uma vez, de correr nessa minha vida parada, sem graça e sem dor. Os campos que nos cercavam, onde morávamos, não tinha muitas árvores... ainda assim havia os pássaros. Não eram muitos mas eram bonitos o suficiente para nos fazer sorrir, diante de tal liberdade que nós mesmos nunca teríamos. E quando chegava a hora de voltarmos, todos suados por tanto correr, nos despedíamos daqueles formosos pássaros que, ao nos verem a caminhar de volta, cantavam suas músicas, cada um com seu estilo e sem preconceito. Hoje quando...