I

(Víctor Lemes)


Passo todos os dias em frente àquele quarto branco, vazio. Faz calor aqui em cima, mas lá é fresco, mesmo com as janelas sempre fechadas pra rua. Nossa casa é grande, pois, sós, moramos. E tínhamos grandes árvores no jardim, que nos protegiam das vozes dos vizinhos chatos. Mas veio a chuva e decidiu apagá-las da vista da janela da cozinha. Os pássaros que viviam nelas, ainda beiram o muro, e fazem companhia aos pequenos lagartos.

Os cães que vivem aqui são tranquilos, porém arteiros, se é que tal contraste é possível em nossa gramática maluca. Eu, sempre tive pelúcias de animais, porém, só fui poder ver os reais crescerem quando mudamos para uma casa. Antes, acolá, ventava muito e as janelas costumavam falar à noite. E o piso era carpete, me escondi algumas vezes debaixo da cama, e pude senti-lo como pequenas bolinhas de pêlos. Quem sabe sentiria minha falta, e procuraria minha presença. E aqui ainda faz calor.

Já sentei muito em frente àquele rádio, pra ouvir tocar músicas que gostava de cantar com os amigos na escola. E que, falavam de mim e por mim. Apesar de que naqueles dias, eu não pensava muito nas coisas. Era só acharmos um buraco pra nos enfiarmos lá. Ou então, esperar os das salas mais velhas jogarem a lata de 7UP no lixo, para que enfim pudéssemos pegá-la e amassá-la com o pé. Nos dividiríamos em times, e jogaríamos até tocar o sino. Acho que ainda tenho as medalhas que ganhamos, nos jogos inter-classes. Não me lembro de ter jogado alguma partida até o fim, mas sempre puseram a medalha ao redor do meu pescoço.

Tive, um dia, que criar nuvens na cozinha de casa. O procedimento era simples: bastava encher de água uma panela e tampá-la. Quando fervesse, tirava a tampa e a mantinha a certa distância do vapor d'água. Minhas nuvens se formavam nela, e choviam. É claro que minha mãe estava lá para me ajudar. Sempre está. Não me lembro de ter posto água na panela, nem de ter feito o procedimento todo, mas, mesmo assim, a professora me deu um sorriso.

Tive, outro dia, que escrever um livro que tivesse, no mínimo, dez capítulos. Minha mente não mandava no meu coração até então, e deixei que minha imaginação corresse livre, sem saber se voltar iria. Escrevi um capítulo, mostrava para minha mãe. Ela gostava, dizia que escrevi muito pouco, que devia melhorar ali. Ao final, tinha em mãos um livro com onze capítulos. O título? Não me recordo. Mas lembro-me bem da estória, naquela época ainda existia tal palavra, cujo personagem principal, morava no Sol, e seu nome era Aviator. Pois é, sempre fui fascinado por inglês, desde pequeno. Seu destino? Viajar pela Via Láctea, percorrendo todos os planetas, e conhecendo pessoas, terras secas, geladas, e nubladas. Em nosso espaço temos nove planetas, mais o Sol e a Lua, se déssemos um capítulo para cada, teríamos mais que o mínimo. Não me lembro de ter feito um capítulo para o planeta Terra, mas minha mãe gostou e eu também. As ilustrações era minhas, queria tê-lo aqui de novo.

Hoje, quando passo pelo corredor que leva até a cozinha, sou vigiado por aquela estrela, que da geladeira me observa. Enquanto almoço, no colar de minha mãe, ela também me observa, e no portão de casa, bem ao lado do número, e da letra V pregada na parede, ela está lá me vigiando. Não é uma estrela como aquelas que vemos em desenhos de criança, toda bonitinha, inteiriça, completa. Esta é Celta, e tem somente o contorno das retas, ou seja, não é preenchida. Ela deve ser mágica, porta alguma energia enigmática, pois toda vez que passo os olhos naquela geladeira, o primeiro olhar focaliza nela.

Fora a de papel, de plástico, e de ouro, existem também outras reais, que se movimentam, que pulsam várias cores, mesclando sempre entre azul, vermelho e branco. Contudo, recentemente, vimos passar um totalmente vermelha. Pulsava vermelha, e se movia não tão rápido, mas nem tão devagar quanto um balão, parecia não se importar se a víssemos ou não. Isso já é muito problemático de explicar, então deixe que elas te encontrem, e te façam entender.
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SOBRE O AUTOR

Víctor Lemes, idealizador e administrador do blog, geminiano nascido em 1989, em São Bernardo do Campo. Formado em Letras (UniAnchieta/Jundiaí - 2009), e pós-graduado em Especialização em Língua Inglesa (UniAnchieta/Jundiaí - 2011), trabalha como coordenador pedagógico e professor de inglês na escola de idiomas CNA, localizado em Louveira, cidade em que mora desde 2002.

1 comentários:

  1. Eu chorei.... uma pequena viagem ao passado e chegando ao presente! Te amo!

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