Revelação

(Víctor Lemes)




Um sino.
Estamos, mãe e filho, abraçados,
Diante de gigante sino,
A conversar, rimos e sorrimos.

Uma luz.
Invade todo o meu espaço,
Tudo se ilumina em segundos,
Me sinto em paz, embora sozinho.

Paralelepípedos.
Percorro ruas estreitas,
Cheias de gente, é cedo o dia,
Me vejo a correr por entre elas.

O negro.
Me observa ao longe,
Me indica que é preciso segui-lo,
Seu olhar: profundo. Confio.

A loja.
Avanço, corro, paro.
O negro sumira dentro da loja
De roupas coloridas... medo.

O segundo negro.
Passara a vez para o segundo
Aquele que um dia persegui,
O que fora o primeiro. Amplo sorriso.

Túneis.
Persigo-o por um breu tremendo,
Não há energia elétrica,
Há lampiões de azeite nas paredes.

A  criança.
Está lá parada, sorrindo, feliz.
Lembro de seu rosto muito bem,
Sua pele negra brilhava.

O convite.
Pediu-me que não tivesse medo,
Já que minha mãe já o vira antes.
Jurei tranqüilo silêncio...

A sala branca.
Lá havia um sofa de dois lugares
Igualmente branco.
Uma mesa de centro, e toda de vidro...

Nos dividia.
Não havia ninguém ali sentado,
Porém, ainda a bela criança,
Encostada no batente inexistente, fitava-o...

Mãos no vidro.
Ponha as mãos no vidro e pergunte-o
O que quiser, sugeriu o pequeno.
No vidro as sobrepus, confiava.

O homem.
De fato, consegui o ver depois
De tê-las, ao vidro, sobrepostas.
Sorria. Encantado, chorava.

A voz.
Falou sem pronunciar palavra,
Pois nem boca tinha, mas ainda assim,
Sorria. Não podia vê-lo como me vejo.

As perguntas.
Disse-me que podia perguntar-lhe
Tudo que quisesse ouvir respotas.
Estava eu diante de um dos deuses.

Foram tantas.
Mas tantas as perguntas que fiz
A ele, que não me recordo nem sequer
De uma apenas. Estava feliz.

Compreensivo.
Sorria pra mim, como meu pai
Nunca o fez. Me senti aliviado,
Entendia mais sobre tudo.

O homem.
Era dourado, não tinha face,
Não tinha olhos, nem dentes,
Só o reconheci pelos seus cabelos.

Quinze minutos.
Talvez tenha passado apenas isso,
E já havia  respostas em mãos de anos.
Chorava por dentro, estava agradecido.

Eu podia ter ficado mais.
Mas a criança, apareceu de repente.
Me dizia que meu tempo já se esgotava.
Teria que regressar...

As mãos.
Tirei-as do vidro, e por conseguinte,
Deixei de vê-lo. Ainda a criança
Podia vê-lo bem. Sorri para o sofá, e segui.

De mãos dadas.
Percorremos os mesmos túneis,
As mesmas ruas de pedra estreitas,
Agora já vazias, e cheias de estrelas.

A escada.
Chegara diante a uma.
Cercado pelos homens negros,
E a criança bela, subi confiante.

As badaladas.
Ao chegar ao topo, a vi de pé,
Ainda sorrindo, falei que voltara tarde.
Olhou-me curiosa, e o sino tocara.

Voltara tarde?
Perguntara abismada, me achava louco,
Disse-me que não havia saído de seu lado
Nem por um minuto...

As naves.
Elas estão lá em cima a nos observar,
O meu caminho já é traçado, e já sei
O que fazer, só não me recordo agora...

Acordar.
Só isso basta para viver de verdade.
Acorde agora, viva sabendo de tudo,
Saiba que Eles existem... e aprenda o valor de Amar.

Compartilhe:

SOBRE O AUTOR

Víctor Lemes, idealizador e administrador do blog, geminiano nascido em 1989, em São Bernardo do Campo. Formado em Letras (UniAnchieta/Jundiaí - 2009), e pós-graduado em Especialização em Língua Inglesa (UniAnchieta/Jundiaí - 2011), trabalha como coordenador pedagógico e professor de inglês na escola de idiomas CNA, localizado em Louveira, cidade em que mora desde 2002.

0 comentários:

Postar um comentário