Sabe

(Víctor Lemes)


Sabe que hoje acordei com esse sentimento de carinho nos olhos, de poder sentir a saudade de um mundo colorido e simples, com milhares de carrinhos em uma única largada, outros milhares de amigos imaginários tão reais quanto o algodão de que eram feitos. De saber que posso dormir tranquilo, que tudo está bem em casa, que minha mãe sorri na sala, enquanto vê, na sacada, as três esferas reluzentes que dançavam para nós. A saudade de uma xícara com olhos e pés, que substituíra a mamadeira tão querida, naquele dia. Os bonecos, os Legos, os Cavaleiros do Zodíaco e os CyberCops.
Tinha dias que me fazia cozinheiro, em mundo americano, onde tudo era feito de lata e meu fogão não tinha forno. Ou então, quando tirava tudo do lugar e colocava em cima do criado-mudo, da cama, e da cadeira da escrivaninha, inventava preços e fazia do meu quarto um verdadeiro mercado. Ou ainda, quando juntávamos duas cadeiras da mesa de jantar, púnhamos um coberto em cima, pegávamos o gravador de fita amarelo, e fazíamos da sala uma tenda, naquele acampamento de carpetes.
Não me recordo de quantos anos era a minha festa, a qual sempre quis que repetisse. Todos juntos, jogando "stop", ao redor da mesa com o bolo Corinthiano, a cantar parabéns, todos juntos, juntos, juntos. E hoje, todos são distantes e distantes. Acho que nunca mais vou ter a chance de tê-los todos juntos num dia só, pelo menos não nesse sonho. Sabe, minha vida foi como um sonho, já que minha mãe me protegeu de muita coisa, se fechou para me abrir, e me deu um amor que, semelhante, não há de ter por aqui.
Eu dei muito trabalho, sim, apesar de tudo. Mas ela sempre acredita em mim, porque eu acho que essa coisa só tem em mãe, sabe? Essa mágica naquele olhar, que só de olhá-la por poucos segundos, já te faz ficar alegre, e já me faz sentir seguro pelo que sou e o que venho fazer aqui. Eu sei que não tem muitas mães por aí, e que tive sorte, mas é importante ter em mente que nem tudo é perfeito, até porque nós viemos pra cá, para fazermos desse sonho imperfeito algo real. E perfeito.
Sabe, não tive irmãos, mas também nunca os quis. É claro que se tivesse um, entenderia como é ter um, isso é redundante. Por conseguinte, se não tenho irmãos, não teria sobrinhos pra compartilhar algumas memórias que seriam engraçadas e relevantes... Não, meus alunos são pra mim como amigos próximos, não os vejo ainda como filhos, como alguns professores me tiveram como tal.
E eu nem sei porque eu escrevo tudo isso aqui. Acho que é por ter tido a notícia, da vinda de mais uma criança, nos próximos nove meses. Tenho certeza que a mãe dessa criatura vai cuidar bem dela. Não sei quanto ao pai, não o conheço, mas se a fofa da mãe está feliz com ele, deve ser algo de valor... Eu sei que ela sabe que eu só falo por brincar, pelo prazer de apenas fazê-la rir, pois é isso que faço de melhor.
Indiretamente, mesmo que eu for "meeeeesmo" indiretamente tio, eu aceito. Sabe, eu gosto de crianças. Ultimamente tenho visto muitas, e muitas tem me visto. É recíproco. É algo mágico, algumas tem atenção, outras não... Mas meu sorriso as acompanham por toda a vida, como disse, é o que faço de melhor. Chega a ser um pouco estranho para as pessoas que ouvem, ou que me lêem, mas vejo em todas elas o mesmo olhar, aquele que lhe disse há pouco.
Outro dia mesmo, esse "fidido" pequeno, passou por mim acompanhado com sua mãe, e eu o cumprimentei. Ele sorriu, depois com ar engraçado, olhou pra sua mãe e perguntou em alto e bom tom: "Ele é mulher, mãe?"... Esse vai ser um dos meus.
E sabe de uma coisa? Quem sabe essa nova criatura não se apaixona também, como o tio aqui, pelo sotaque Britânico?
Bruna, fico muito feliz. Fique muito feliz.

Compartilhe:

SOBRE O AUTOR

Víctor Lemes, idealizador e administrador do blog, geminiano nascido em 1989, em São Bernardo do Campo. Formado em Letras (UniAnchieta/Jundiaí - 2009), e pós-graduado em Especialização em Língua Inglesa (UniAnchieta/Jundiaí - 2011), trabalha como coordenador pedagógico e professor de inglês na escola de idiomas CNA, localizado em Louveira, cidade em que mora desde 2002.

1 comentários:

  1. poxa viiidaaa....como sempre vc me fez sorrir *_* pode ter certeza q vai ser mto bom pro meu "fidiiiido" crescer e saber que ele tem um "tio" que adoora um sotaque britânico que a mãe dele não gosta mas que acima de tudo, inclusive da distância, é (no presente) AMIGO da mãe dele, um amigo que pode ter certeza de que a mãe dele tem muito orgulho de ter conhecido...fico feliz em saber que vc ficou feliz...amigos são pra isso....

    ResponderExcluir